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sábado, 27 de agosto de 2011

gone with the wind


Desde criança essa cena me impressiona, e 
em diversos momentos diferentes de minha vida,
encarno Scarlet nessa cena gloriosa!
Hoje é um desses dias...
As God is my witness... 
obs: Não podia deixar de comentar luz tão linda e contrastante, 
responsável por grande parte da dramaticidade e impacto da cena.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

a carta de amor

minha carta de amor se despedaçou 
em milhares de pequenos pedaços ilegíveis de papel usado.
antes, uma declaração cheia de poesia,
passado um tempo, é só papel escrito 
que nem a traça quis roer. 

a carta de amor tinha um endereço,
descobri anos mais tarde ser falso.
endereçada a ninguém realmente endereçável,
voltou, guardei e amarelou.
(amarelo é o branco que sujou.) 
agora que a minha carta de amor, 
não tem mais quem amar, 
é papel sujo e amarelo somente. 
devidamente picado, com boa vontade reciclado.

endereços de cartas de amor, 
mesmo inexistentes,
deveriam ao menos,
ter compaixão dos remetentes. 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

o homem que colecionava coleções classificadas















josué não era nem triste nem alegre.
não era dado a cervejas nem vodkas.
não comia demais nem pouco.
gostava de carros com moderação para transporte,
assistia futebol na TV quando não estava dormindo
e domingo tentava ter um dia tranquilo.

josué não era mulherengo nem fiel.
praticava um pouco de bocha e andava de bicicleta para o sangue circular.
era um homem em parte atraente, em parte repelente.
tomava banho, perfumava-se com discrição,
mas nunca tinha rompantes de vaidade.
o armário de josué era de fácil arrumação.

para os outros, josué era um homem simples,
discreto, sem graça, imperceptível digamos.
descrever josué era muito difícil.
como fazer a descrição de pessoa tão igual?
se fosse um criminoso, teria um futuro bem promissor,
o retrato falado de josué seria parecido com milhares de outros.

josué só tinha uma minudência, invisível aos olhos dos outros.
aliás ,como ele próprio.
josué colecionava coleções classificadas.
simples.
se josué fosse ao teatro e recebesse o folder da peça,
havia uma coleção para abrigar folhetos de peças teatrais.
porém, refinado e perfeccionista que só, a coleção de folders se dividia
em estilo de peça, grau de interesse despertado pelo espetáculo, local,
número de atores em cena, autor e cenografia simbolista ou naturalista.

essa era a classificação micro, a macro englobava folders, panfletos, anúncios,
cartões, flyers, impressos institucionais e pessoais, folhetos,
semamários litúrgicos catequéticos, lembranças de aniversários e
casamentos, cardápios de restaurantes, comandas de saladas e massas,
cupons de desconto em boates, ímãs de geladeira etc.

josué não sabe bem quando começou essa sua vontade.
primeiro quis apenas começar a determinar o gênero, espécie e origem de
algumas coisas desconectadas.
depois viu uma ligação entre algumas delas, ligou um grupo a outro,
reuniu conjuntos semelhantes e percebeu que pertenciam a engrenagens ainda maiores.

não tinha a intenção de fazer tantos julgamentos e decisões de posições.
mas a cabeça de josué era uma entidade a parte,
um sistema classificatório em operação contínua.
sentia que precisava parar e não possuia mais meios para isso.

josué era um homem circular.

imagem: thingsorganizedneatly

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

a mulher que precisava muito ser amada


mais uma vez abria os olhos pela manhã.
era uma vez diferente.
acordava de um bom sonho, no qual,
uma fada qualquer,
condenava-lhe ao amor.
ao melhor amor de todos os tempos.
decisão primeira: trocar o despertador por alguém mais gentil.
levantou-se com amor e decidiu levá-lo consigo por onde quer que fosse.

no café da manhã, determinou que não comeria mais glúten.
glúten inchava-lhe a barriga, e assim só queria o coração.
caminhando para trabalhar, correu. muita pressa.
o amor é rápido e passageiro.
olhou a repartição com olhos diferentes.
café frio, mesas feias,lascadas, pintura gasta,
pessoas cansadas, olheiras, chateadas e chatas.
apesar de supervisionar o departamento,
pediu as contas.
nunca contou porque pediu,
mas fato é, nunca mais contaram com ela.
um absurdo! contava quem ficou.

em sua jornada de condenação ao amor total, prosseguiu então.
tentou várias vezes saber onde ele se hospedava e oferecer-lhe abrigo.
vai que o amor é um forasteiro?
ora jejuava, ora se entupia de pastel com brigadeiro.
não era entendedora de amores, e no entanto
estava agora fazendo-lhe as vontades.

tentou outras combinações, ouvia por aí que o amor é inesperado.
andou por lugares esquisitos e estranhos, ele podia estar em qualquer esquina.
rezou para diferentes santos e divindades de devoções variadas, o amor é sublime.
doou todo o dinheiro que havia poupado,
um anúncio de TV falava que amor não era coisa de compra.

os vizinhos achavam que estava bem enlouquecida,
a família não sabia mais o que falar.
para a mulher que precisava muito ser amada,
agora, mais precisada e mais condenada,
o que não fosse de amor, pouco importava.






terça-feira, 9 de agosto de 2011

filomena

filomena saudosista
não se continha de saudade
quando chegava o fim da tarde.
Na firma em que trabalhava,
o relógio sempre, pontualmente batia
às cinco e quarenta e quatro.
fechava as canetas de tampa,
cobria os cadernos com pauta,
escovava cinquenta e duas vezes os cabelos,
fechava a bolsa de alças,
e então saía.

todo entardecer era aquela mesma agonia.
uma escoliose invertida,
uma traumatologia d'alma,
que nunca sossegava.

era bem verdade que filomena
sempre fora desse mesmo jeito
triste e melancólico.
desde pequena, quando ainda se magoava
ao contar no pique esconde.
só de ficar ali contando,
já sentia falta, daqueles que iam se esconder.
só de ficar ali, imóvel, partia-lhe o coração,
de também vê-los partir.

filomena era uma mulher de sentimentos.
fortes.
falava-lhe o pai que apego demais,
era sinal de mesquinhez.
mas para filomena, o que realmente valia
eram as emoções que podia sentir.

filomena saudosista, ao final da tarde,
já estava ansiosa, pela volta
no outro dia de manhã.
deixava o salão da contabilidade
muito lentamente, para que a despedida
fosse um pouco menos dolorida.



a merecidão

merecida vez em que fui reconhecida
por tão corajoso e desprendido feito.
por essa vez, me falaram alguns,
que o feito que me havia sido atribuído,
não esperavam outros, eu tê-lo merecido.

mas, não é que a tal merecidão não é coisa de explicação?
passa uma vida toda pensando
que o louvor já lhe pertence,
que a recompensa é justa,
que o santo lhe escuta ,
e não é que não!

merecidão é de outro mundo.
é justamente merecido por sair do coração.
sem a intenção
de reconhecimento, glória ou gratulação
do propósito de merecidão.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A ingratidão



Ingrata, ide então!
Chegou-se, entrou-se, usufruiu, deleitou-se
abusou-me, encheu-me, pediu-me,
esfolou-me os bolsos e a geladeira,
acabou com a paçoca ,o doce de leite, o quindim,
a mariola, as jujubas e puiu as meias de corrida.

Ingrata! usou-me o sabão, e ainda pediu mais.
pede e repete, numa cansativa ladainha sem ponto
nem parágrafo nem vírgula ou qualquer regra de
educação verbal social emocional

É então chegada a hora.
E agora, sou eu quem estou agradecida
de não ter mais em minha vida
a sua tão enorme e chata ingratidão!

domingo, 26 de julho de 2009

Dicionário Bons Fluidos _ amei isso!!!

ACEITAÇÃO: pensar “então ta bom” em vez de “já que tem que ser assim”.
ADOLESCENTE: toda criatura que têm fogos de artifício dentro dela.
ALEGRIA: bloco de carnaval que não liga se não é fevereiro.
ANSIEDADE: quando falta 5 minutos sempre para o que quer que seja.
BALÉ: quando corpo é lápis, espaço é papel e música é motivo.
BEIJA-FLOR: a coisa que mais se parece com flor, tirando mulheres apaixonadas, borboletas e filhos.
BEIJO: um carimbo que serve para mostrar que a gente gosta daquilo.
BELO: tudo que faz os olhos pensar que são coração.
BONDADE: aquilo que cai do coração quando a torneira está aberta.
CALMA: quando as agonias dormem profundamente dentro da gente.
CASAMENTO: junção de pessoas por um tipo de liga que não tem nada a ver com cola e de que até hoje não se tem notícia da receita.
CERTEZA: quando a idéia cansa de procurar e pára.
DENGO: a vontade súbita de ter uma avó por perto.
DOR: é tudo aquilo que dá vontade de dizer “ai” lá de dentro do peito, seja topada, perda, cascudo ou abandono.
DESCULPA: uma frase que pretende ser um beijo.
ELOGIO: é quando a frase surge efeito de champanhe.
ENCONTRO: a reunião formada pelo que procurava, pelo achado e pelo acaso.
ENGANO: quando era pra ser, mas não era.
ESTÍMULO: um cutucão na vontade.
FANTASIA: qualquer tipo de “já pensou se fosse assim?”.
FÉ: é toda certeza que dispensa provas.
FIDELIDADE: um trato que você faz com você mesmo de cumprir os tratos que você fez com os outros.
FLERTE: quando se joga escravos de jó com os olhos.
FRACASSO: o sentimento que vem antes do “dessa vez eu consigo, quer ver?”.
FRANQUEZA: é quando as verdades querem sair e saem mesmo.
GENTE: é carne, osso, alma, sentimento,tudo isso ao mesmo tempo.
GRAÇA: é tudo dado e recebido com sorriso.
GULA: quando chocolate é mais importante que espelho.
HARMONIA: quando os olhos, os ouvidos, a boca e o coração sorriem ao mesmo tempo.
HIPOCONDRIA: mania de transformar espirro em pneumonia.
HUMANIDADE: como é sinônimo de bondade, deveria ser coletivo de bondosos.
IDADE: aquilo que você tem certeza que vai ganhar de aniversário,queira ou não queira.
INGENUIDADE: é quando o saber ainda está nu.
INDECISÃO: é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que deveria querer outra coisa.
INTERESSE: ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
IRRITAÇÃO: um alarme de carro que dispara bem no meio do seu peito.
JOANINHA: bichinho que deve ter nascido num dia que a Criação estava especialmente bem-humorada.
LIBERDADE: um azul que atrai e espanta ao mesmo tempo.
LOUCURA: é coisa que quem não tem só pode ser completamente louco.
LUCIDEZ: é quando o pensamento não está fora de foco.
MÃE: é aquilo que dá vontade de gritar quando a gente não sabe o que eu fazer.
MATURIDADE: quando o enredo da pessoa se depara com sua trama central.
NAMORO: é quando o universo inteiro em volta importa menos que o abraço.
NOVELA: a única situação em que, quanto mais complicação houver, mais a gente gosta.
OUSADIA: é quando o coração diz para a coragem “vá” e a coragem vai mesmo.
PACIÊNCIA: é uma mãe que existe em todos nós.
PAIXÃO: quando apesar da palavra “perigo” o desejo vai e entra.
PERDÃO: quando o Natal acontece em maio, por exemplo.
PREOCUPAÇÃO: é uma cola q não deixa o que aconteceu ainda sair do seu pensamento.
QUASE: é o curinga de toda incerteza.
QUOTIDIANO: tentativa de deixar um cotidiano um pouco diferente.
RANCOR: quando o fundo do coração não consegue dizer “deixa pra lá”.
RECORDAÇÃO: quando um pedacinho do passado volta ainda mais enfeitado.
RESPOSTA: frase-luz que ilumina frase-escuro.
ROMANCE: caso de amor muito bem encadernado.
SEDUÇÃO: mania que têm os olhos, os ombros, a cintura, os quadris e a voz de brincar de ímã.
SENTIMENTO: a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
SAUDADE: quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue.
SILÊNCIO: quando os ruídos estão sem assunto.
SUCESSO: quando você faz o que sabe fazer só que todo mundo percebe.
TERNURA: é amor com recheio de goiaba.
TRÉGUA: um pedacinho de paz espremido entre duas latas.
URBANO: sem vacas.
URGENTE: algo que não dá tempo de fazer xixi primeiro.
V: paz e amor.
VAIDOSO: pra quem a vida é avenida.
VAIVÉM: quando a certeza está com uma preguiça danada.
VONTADE: é um desejo que cisma que você é a casa dele.
XÔ: única palavra do dicionário das aves traduzidas para o português.
ZANGADO: um anãozinho da Branca de Neve que baixa na gente de vez em quando.
ZEN: quem consegue não enlouquecer, mesmo sem tomar calmante.

liiiiindo!!!
(revista bons fluidos - dez/07)